Escalão A | Artigo
Quando a natureza se revolta
Ana Cristina Nunes Rodrigues, Joana Carolina Carvalho Mendonça e Ricardo José Dinis de Sousa
Escola Sec. de Francisco Franco17/06/2010
Resumo
No dia 20 de Fevereiro a excepcional pluviosidade que se abateu sobre a ilha da Madeira fez despoletar uma tragédia. A cidade do Funchal é recortada por três ribeiras, a de são João, a de Santa Luzia e a de João Gomes. Estas reúnem outros cursos de água mais pequenos e atravessam toda a cidade.
Artigo

(Foz das três principais ribeiras que atravessam a baixa do Funchal( Google earth)
Ao longo da História da Ilha da Madeira sempre existiram exemplos de cheias que resultaram em perdas de vida e prejuízos avultados, no entanto os leitos das ribeiras continuaram a ser canalizados, aumentando assim o risco de transbordar em dias de forte pluviosidade.
Depois do aluvião de 1803 o governo Nacional enviou para a ilha o engenheiro militar Brigadeiro Oudinot para este superintender e dirigir as obras de construção de muralhas protectoras e de encaminhamento da água nestas três ribeiras que atravessam a cidade do Funchal. As secções destas ribeiras foram, então, alargadas e construiu-se taludes de alturas elevadas, calculadas tendo em conta a última aluvião. Estas obras pretendiam evitar tragédias como a aluvião de 1803.
Então o que ocorreu mal para que no dia 20 de Fevereiro de 2010 outra aluvião acontecesse? Alguns especialistas culpam o mau ordenamento do território e a construção desenfreada que tem vindo a ser feita ao longo dos leitos da ribeira, por esta catástrofe. Nas imediações das ribeiras assistiu-se ao longo dos últimos anos a uma crescente construção na baixa citadina, algumas secções das ribeiras sofreram estreitamentos e encanamentos mal dimensionados dos cursos de água, os leitos de cheias das ribeiras foram ocupados por casas, estradas e centros comerciais com estacionamentos abaixo da superfície que conduziram à impermeabilização do solo e do subsolo. Sendo estes alguns exemplos de mau planeamento urbanístico.
Na sequência da construção subterrânea na baixa do Funchal ao longo destes anos, muitos estudos foram feitos sobre o impacte ambiental, nos quais concluí-se que construir nos locais em questão teria um impacte negativo para o ambiente e seria uma ameaça para os cidadãos, uma vez que se situavam nas imediações de ribeiras que tiveram, no passado, episódios de cheias e aluviões, tendo sido um erro de planeamento e ordenamento do território efectuar a construção deste tipo de edifícios.
No entanto, o presidente do Governo Regional, o Dr. Alberto João Jardim, contesta estas "teorias" de culpabilização lembrando que, devido à morfologia singular da Madeira, que torna impossível a construção na grande maioria da ilha, é necessário colocar 75 por cento da população em 35 por cento do território, pelo que as construções efectuadas eram necessárias, sendo que algumas dessas construções, como o Mercado dos Lavradores, foram efectuadas há muitos anos atrás, quando ainda não existia ordenamento do território, tendo-se tornado símbolos emblemáticos da cidade do Funchal.
Na última década verificou-se, também, a retirada do gado caprino e ovino das serras do Funchal e procedeu-se a uma intensiva florestação, que visava a diminuição do risco da ocorrência de outra catástrofe. No entanto, a excepcional quantidade de chuva que se verificou no dia 20 de Fevereiro fez com que solos das zonas altas se soltassem e devido à orografia acentuada da ilha se precipitassem em derrocada pelas ribeiras em direcção à foz. Os inertes, lama e rocha foram-se acumulando e os taludes das ribeiras, apesar de extremamente elevados, foram insuficientes, ficando entupidos, e a água, lama e rocha abandonaram o seu leito normal, inundando as ruas próximas da foz.

Até os socalcos construídos ao longo das ribeiras, com o intuito de diminuir a velocidade das águas, não foram suficientemente eficazes. Todas as ruas abaixo da cota quarenta onde se situa a Escola Secundária Francisco Franco foram bacia de sedimentação da lama e dos inertes transportados pelas ribeiras. A escola que se situa entre duas das ribeiras, a ribeira de João Gomes e a ribeira de Santa Luzia, escapou ilesa, só as ruas completamente entupidas de destroços impediram o acesso e a retoma normal das aulas.
Desde o dia 20 de Fevereiro que as maiores empresas de construção civil que trabalham na Madeira têm meio milhar de homens e mais de uma centena de máquinas e camiões nos trabalhos de limpeza das ribeiras 24 sobre 24 horas sem interrupções, num esforço unido para limpar os inertes acumulados nas ribeiras pelo aluvião de sábado. É um trabalho vital para a segurança do Funchal e dos seus cidadãos, já que o assoreamento da foz das ribeiras afectadas pelo aumento do caudal é uma bomba relógio iminente caso volte a chover. Os inertes pedras, lamas e destroço estão a ser retirados e depositados em locais próximos e seguros evitando grandes viagens e demoras.
Desta desgraça é preciso retirar lições, repensar as atitudes, "limpar"o que está errado e depois reconstruir de acordo com um plano de ordenamento do território adequado à situação.
